Au Pair nos EUA: Minha Primeira Mudança

girls 12
Au Pair Meeting: Grupo completo com as meninas e nossa Area Director, Pam Swapp

O que você estava fazendo em Dezembro de 2007? Eu me lembro muito bem: Entreguei um TCC nota 10, elogiado por toda a banca, junto aos meus amigos Nivaldo e Raoni. O tema do trabalho foi o Padre Donizetti, conhecido por ter vários milagres atribuídos a ele, na década de 50, no interior de São Paulo. Assim como os devotos do sacerdote, eu também estava absolutamente sem direção e pedia por algo extraordinário em minha vida, tentando praticamente todo e qualquer processo seletivo que abrisse vagas pelo trimestre seguinte. Sem sucesso, fui buscar por alternativas e veio a luz: Por que não um intercâmbio?

xvegas 06

Quem já pesquisou sobre o tema sabe que existem mil programas diferentes, atendendo a todos os gostos, bolsos e perfis. Como jovem recém-formada, dependendo basicamente de freelas e oportunidades esparsas como pesquisadora em um Instituto de Estatística, a verba disponível era curta. Depois de algum tempo de busca, conheci o programa de Au Pair através de amigas, cuja proposta é viver com uma host family e cuidar das crianças em troca de um salário e de uma bolsa de estudos anual com valor pré-determinado. Após conversar com algumas empresas, optei pela Au Pair Care, que era intermediada pela STB, em Santos. Por coincidência, uma grande amiga minha, a Jeanie, trabalhava como agente lá e me deu uma baita força.

meeting

Não sei como o programa funciona hoje em dia, mas naquele tempo existiam algumas etapas. Primeiramente, você tinha que preencher alguns requisitos para poder se inscrever: ter até 26 anos, ter diploma do ensino médio, passar em um teste de inglês formulado pela agência, apresentar exames médicos satisfatórios, ter carteira de motorista e ter experiência comprovada com crianças.

Passada essa triagem, vem a parte mais estressante, que é preencher a application, esperar o aceite e finalmente ficar disponível para conversar com as famílias. Na época, um grande aliado foi o finado Orkut, que possuía diversas comunidades sobre o tema onde pude trocar informação, encontrar suporte e fazer amigas – e muitas delas são parte fundamental da minha vida até hoje.

39789_414989460492_688950492_5241401_5735151_n
Mike, aka best host dad ever!

Ansiosa que sou, fui atrás de alternativas para conhecer host families antes de que meu aceite saísse e eu ficasse online, e conheci o site Great Au Pair, que não é afiliado a nenhuma agência e tem o acesso limitado aos pagantes. Muitas famílias ali já tiveram au pair antes e buscam uma alternativa sem vínculos, o que pode ser uma saída para meninas que não se encaixem nos pré-requisitos que mencionei antes. Porém, como eu já havia sido aprovada e queria a segurança do suporte da agência, buscava alguém que estivesse inscrito em uma delas ou estivesse disposto a fazê-lo. Foi quando vi a mãozinha do Padre Donizetti me abençoando e me colocando em contato com uma das pessoas mais incríveis que já conheci.

Na minha cabeça, eu tinha toda uma fantasia montada. Queria ir para um lugar quente, idealmente Califórnia, onde eu pudesse fazer cursos de extensão em Creative Writing. Talvez Stanford? Talvez UCLA? Queria fazer roadtrips e poder conhecer Las Vegas, Nova York, Miami. Queria ter os fins de semana livres. Queria uma família bacana, que me adotasse como parte dela. Nos grupos eram compartilhadas histórias de abuso, de desrespeito e de isolamento e eu sabia que tomaria o tempo que precisasse, mas esperaria encontrar A FAMÍLIA. E aconteceu numa noite gelada do fim de Maio, quando cruzei com um pai recém separado de dois meninos, de San Diego, com quem troquei poucos emails e recebi a famigerada pergunta: posso te ligar?

bday party

Meu inglês não era perfeito. Minha experiência com crianças era apenas familiar. Pensei se esse pai solteiro seria um tarado/um maluco/um psicopata. Ele não estava vinculado a nenhuma agência. Ele nunca tinha tido nem mesmo babá, imagine uma estrangeira de 25 anos vivendo na casa dele. Mas meu coração me deu sinal verde para essa ligação e eu disse que sim. Conversamos por DUAS HORAS e a afinidade com essa pessoa que eu jamais tinha visto foi instantânea. Falei um pouquinho com o filho mais velho e lembro-me como se fosse ontem daquela voz tímida e baixinha tentando dizer meu nome. Ele me perguntou detalhes da agência, lembro de pesquisar e mandar vários links para ele e no dia seguinte já recebi um email dizendo que ele tinha marcado uma entrevista com a area director.

au pairs

Antes mesmo de ficar online eu tinha minha host family, o que era totalmente diferente do que eu lia nas comunidades, que relatavam meninas aguardando família por períodos de até um ano. Nós tínhamos nos encontrado, dependíamos apenas da agência tornar nosso match possível. O mais maluco era que ele precisaria de mim para a primeira semana de Agosto, quando retornavam as aulas e a mãe dele – que é professora – não poderia mais ficar com as kids. Ou Seja: Eu tinha dois meses para ser aprovada no sistema da agência, marcar meu visto e ser aprovada na entrevista do consulado, fazer o treinamento mandatório em Nova Jersey e estar lá trabalhando. Mas meu aceite saiu, ele foi aprovado, a Pam (nossa area director) deu uma força pro nosso match, tudo correu bem na entrevista e fui encaixada no treinamento que começava em 11 de Agosto no último dia possível. Éramos para ser. E fui. E fomos.

Garota, eu vou pra Califórnia…
Antes de encontrar-se com a Host Family, novas au pairs do mundo todo participam de um treinamento de quatro dias, geralmente em um hotel, onde aprendem desde costumes locais até CPR. O da APC, no caso, era em Newark, que fica em Nova Jersey, mas o de cada agência fica em um lugar diferente. As companheiras de quarto são geralmente distribuídas por região de alocação, assim você já pode entrosar-se com outras pessoas. Como na época as redes sociais não tinham a mesma força que tem hoje em dia e os smartphones eram novidade, não mantive muito contato com as meninas que conheci. Tivemos uma noite livre e saí com as brasileiras para conhecer NYC e para mim foi o momento mais inesquecível desses dias!

disney 05

Quinta-feira à noite foi o dia de finalmente voar para San Diego e conhecer minha nova família. Eu havia falado pouco com meu host dad durante o treinamento – nossa única opção eram os telefones públicos, então fiquei receosa em relação à chegada ao aeroporto e como encontrar essa pessoa que eu apenas conheci por algumas fotos. Mas, no desembarque, nos reconhecemos imediatamente e lembro de sentir-me instantaneamente conectada! Foi emocionante e conversamos todo o caminho até meu novo lar. Era tarde da noite e, chegando a casa, não pude conhecer os meninos pois ambos já dormiam. Aquela noite foi de muita ansiedade, acordei cedo e separei todos os presentes para causar uma boa primeira impressão. Desci para tomar o café da manhã e todos dormiam ainda. Até que, por volta das 8h, eles começaram a acordar.

disney
Com o Jake na Disney pela primeira vez!

O primeiro que conheci foi o mais velho, de 4 anos na época, que se chama Jake. Lembro de seu olhar desconfiado de canto de olho, sua aproximação lenta e sua delicadeza para conversar comigo. Muito curioso, começou a me encher de perguntas, que tentei responder disfarçando meu broken English. Alguns minutos depois foi a vez do mais novo chegar, e com ele foi tudo diferente. Ryan, de 1 ano e 10 meses, tinha uma personalidade muito mais explosiva, já chegou falando muito para a idade e sentou-se em meu colo. Em uma sintonia imediata, me senti absurdamente acolhida por “meus três meninos” e fiquei muito feliz por termos nos escolhido. Os pais de meu host estavam lá e foram muito queridos também, tornando aquele momento very special. Eles já haviam feito planos para todo o fim de semana comigo e logo percebi o tamanho da preocupação e do carinho com que eles prepararam tudo. A felicidade transbordava em mim!

Chegar em San Diego no verão é apaixonante. Diversas atividades outdoor acontecem nessa época do ano, incluindo as Del Mar Races, corridas de cavalo super cool com público incrível e shows gratuitos. Foi esse nosso programa para o primeiro dia e me diverti muito. No sábado fomos para Orange County e passamos o dia em Huntington Beach, um dos lugares mais incríveis que já havia estado, seguindo para a casa dos pais de meu host em Glendora, que fica no condado de Los Angeles. Conheci a família toda e, ao fim desses dias, já me sentia totalmente em casa.

nhoo
Passeando com o Ryan em La Jolla Cove

Comecei a realmente trabalhar na segunda-feira e já recebi as chaves do carro, um mapa da área e a rota das atividades as quais seria responsável. Levar e buscar o menino mais velho na escola, cuidar da laundry, cozinhar para os dois, dar banho, ajudar na lição de casa… tudo que era um pouco desafiador de começo tornou-se natural com o passar do tempo, assim como nosso convívio. Eu e o Ryan nos apegamos muito, pois ele passava muito tempo comigo e eu fazia de tudo para que ele tivesse um dia cheio de atividades. Eu marcava playdates, o levava ao mercado, à praia, ao playground, à piscina e via que ele era uma criança muito feliz. Nosso relacionamento era quase de mãe e filho, e ele diversas vezes me chamou de mom. Já o Jake tinha um pouco mais de ciúmes, mas também não era nada impossível de contornar. Em poucas semanas eu já sabia que queria extender meu programa e ficar mais um ano com eles. Life was good.

Minha area director era super presente e enviava-me constantes mensagens, preocupada se eu estava me conectando com as outras au pairs da região e sugerindo atividades. Nosso primeiro au pair meeting foi em Coronado, uma cidade linda ao sul de Downtown San Diego e conheci garotas que são até hoje minhas amigas. É muito importante participar dos encontros, pois você precisa ter pessoas que estejam passando por uma situação parecida com a sua para trocar experiências e encontrar-se para um café, para comprinhas ou sair pra balada. Por ser uma das poucas meninas a ter um carro 100% disponível para mim, acabei criando nossa “pequena máfia” e planejávamos sempre viagens, piqueniques e visitas a lugares bacanas. Tentei não me aproximar somente de brasileiras para conseguir evoluir no inglês e em poucos meses me sentia confiante o suficiente para começar a estudar nos cursos específicos que tanto sonhei.

l_a58e4434f8bb4a5ba121adb5d07aae71

Como grande parte de minhas amigas, a instituição escolhida foi a UCSD, que fica em La Jolla e tem um campus lindo de viver. Comecei em um curso de English as Second Language para afiar de vez meu vocabulário e depois parti para algo voltado totalmente para nativos, uma extensão em Screenwriting. Fiz, ainda, alguns cursos gratuitos de escrita e accent reduction e recomendo à todas as meninas que participam do programa a dedicarem-se aos estudos – é super importante e enriquecedor. Além do óbvio conteúdo cultural, também é imprescindível para conhecer novas pessoas e sair um pouco da vidinha de au pair, que com o tempo se torna rotineira e maçante. Outra coisa que indico é inscrever-se em uma academia. É o melhor jeito de se manter em forma com tantas comidas diferentes e uma ótima maneira de fazer amigos Americanos. Aliás, foi lá que conheci meu primeiro namorado gringo. Lembrem-se: em 2008 não existia Tinder!

40673_143378309017790_100000368649027_291257_3651271_nCom o tempo, me aproximei bastante das novas au pairs brasileiras que iam chegando e nossa amizade continua firme e forte até hoje. Posso dizer que nos tornamos uma grande família e alguns dos melhores momentos que desfrutei nessa época foi junto à elas. Vá com o coração aberto à experimentar coisas novas, crie laços com sua host family e faça-os entender que seus momentos sem eles também são muito preciosos. Admito que tive muita sorte e meu chefe sempre abriu a casa para que eu recebesse amigos e família, além de me incentivar a ter uma vida independente e intensa, mas tive amigas próximas que infelizmente passaram por algumas situações bem difíceis. Por isso, é importante ter serenidade ao escolher para onde vai e com quem vai morar. Sei que é fácil perder a paciência e aceitar quem apareça, mas é fundamental ter em mente que será um ano inteiro em sua vida e que seus desejos e anseios não estão em você por acaso. Tome seu tempo, pesquise, converse, pergunte, imponha suas necessidades. A regra número um para ter uma experiência maravilhosa é seguir seu coração e não medir esforços para ser feliz!

 

Advertisements

2 thoughts on “Au Pair nos EUA: Minha Primeira Mudança

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s